Dalai Lama
Como todos já devem estar carecas (trocadilho acidental) de saber, hoje chega ao Brasil Sua Santidade o décimo quarto Dalai Lama. Junto com a massiva cobertura da mídia, foram divulgados também diversos equívocos não só quanto à Sua Santidade mas também sobre a filosofia budista. Vou esclarecer alguns aqui:
1. Pra começar: quem é o Dalai Lama e por quê "décimo quarto"?
Dalai Lama é como é chamado o líder político e religioso do Tibet, hoje sob o domínio da China. Diz a lenda que a rigor um Dalai Lama é a reencarnação do anterior, um bhodisatwa: um ser iluminado cuja única função é ajudar os outros.
2. Como é escolhido o Dalai Lama?
No caso do atual Dalai Lama, o cadáver de seu antecessor teria virado o rosto para o leste, onde havia uma curiosa formação de nuvens e um fungo em forma de estrela. Segundo os tibetanos, essa foi a forma do Dalai Lama indicar onde ele renasceria. Iniciou-se então uma rigorosa busca, finalizada quando o menino Tenzin Gyatso, de apenas 2 anos foi encontrado.
Para os leigos, a busca pelo Dalai Lama pode parecer um tanto fantasiosa. Mas uma pesquisa um pouco mais aprofundada do processo e da belíssima cultura tibetana revela aspectos fascinantes, como a rigorosa bateria de testes e entrevistas que exigem que os "candidatos", meninos de 2 anos de idade, revelem nomes, lugares e localizações de tesouros que somente o Dalai Lama anterior conhecia.
3. O Dalai Lama é a reencarnação de Buda?
Não, definitivamente não. Essa afirmação soa quase ofensiva para qualquer estudioso do budismo.
Existem inúmeras escolas budistas pelo mundo, que seguem os ensinamentos do Príncipe Sidarta Gautama, fundador do budismo há 2600 anos. Entretanto, o buda "histórico" foi muito mais um filósofo do que uma figura religiosa, um cientista do corpo e da mente humana. Suas descobertas deram origem a diversas escolas budistas no oriente, sendo que cada uma o via de uma forma diferente, daí surgiu sua imagem lendária e mística.
Independente da escola, em NENHUMA delas Buda é um Deus. Buda significa "o ser iluminado", mas não trata-se apenas do Príncipe Sidarta que viveu na Índia, e é aí que surgem muitos dos equívocos ocidentais sobre a filosofia budista: Buda na verdade é o ser iluminado que existe em cada um de nós. Ao olhar, venerar ou orar para Buda, estamos olhando para nós mesmos, e nunca para um Ser Supremo ou superior. Segundo a filosofia budista, todos somos seres iluminados, budas, que possuem a capacidade de ter compaixão e ajudar o próximo.
Por isso, dizer que o Dalai Lama é a reencarnação de Buda é um grande contrasenso.
4. O Dalai Lama é o "Papa" do budismo?
Jamais! O budismo é uma religião descentralizada, com inúmeras escolas e tradições diferentes e muitas vezes, contraditórias em alguns pontos. O Dalai Lama é o líder de apenas uma delas, o budismo tibetano. Entretanto, nunca se teve notícia de conflitos entre as diferentes escolas budistas, já que a compaixão e a compreensão são pedras fundamentais de todas elas.
Apesar da descentralização, as mais de 300 viagens ao redor do mundo feitas pelo Dalai Lama disseminando os ensinamentos de Buda são apoiadas por todas as diferentes tradições, inclusive no Brasil.
5. Por que o budismo é uma religião tão "pop"?
Existem várias respostas para a expansão do budismo no mundo ocidental.:
- O próprio Dalai Lama: com seu carisma e os meios de comunicação do século XX levou o budismo tibetano para os quatro cantos do mundo.
- A meditação: A principal prática budista, estudada tanto por leigos quanto por cientistas, intrigados com seus efeitos sobre o corpo e a mente. Alguns monges em estado meditativo conseguem façanhas como elevar a temperatura do corpo em até 10 graus ou então reduzir os batimentos cardíacos para impressionantes 3 por minuto (!!).
- Contexto sócio econômico: uma teoria interessante de Osho diz que o budismo é uma religião de ricos e bem informados, e faz sucesso entre eles ao pregar o desapego aos bens materiais por eles já conquistados e experimentados. Essa teoria encontra ressonância com a própria figura do Buda histórico, que teve tantos seguidores justamente por ser um príncipe e ter pertencido à mais elevada casta social.
- Budismo como "segunda religião": O budismo não precisa ser necessariamente considerado uma religião. Qualquer um pode seguir seus ensinamentos e manter sua religião atual sem que elas conflitem, uma vez que o budismo não tem Deus. Trata-se, essencialmente, de um conjunto de práticas que busca equilibrar corpo mente e meio ambiente.
6. Religião sem Deus? Então não é religião.
Para muitos, não. Por isso, é equivocada também a comparação das figuras, mesmo que históricas, de Buda e Jesus. O primeiro era um filósofo, humano, falho, que morreu de disenteria após comer carne de porco, que dizia que não queria ser venerado e que não sabia o que aconteceria depois que ele morresse. Já Jesus é a figura do Messias e Salvador da humanidade, humano e divino ao mesmo tempo, sobre o qual não é necessária muita explicação.
Entretanto, há muitos paralelos nos ensinamentos de ambos, especialmente nos Evangelhos Apócrifos e outras descobertas sobre a bíblia feitas em anos recentes. Discussão que fica para outro dia.
7. O que é carma? É tipo um programa de milhagem budista?
Não! A "Lei do Carma" é simples e idêntica à Terceira Lei de Newton, o princípio da Ação e Reação. "Para toda ação há uma reação oposta e de igual intensidade."
Para entender o carma é preciso esquecer um pouco o conceito cristão de castigo e recompensa divinos. Não se trata de justiça divina, e sim de lógica: se você der um soco numa parede, sua mão ficará doendo e poderá quebrar. Se se acabar com aquela feijoada no sábado, terá dor de barriga e vai engordar. Se der amor, receberá amor e assim por diante. Ação e reação, totalmente independentes de qualquer conceito divino.
É basicamente o mesmo conceito do carma espírita.
Bibliografia: Minha Terra e Meu Povo - A autobiografia de Sua Santidade, o Dalai Lama, Ed. Sextante Buda, Caco de Paula Palestras com Monja Coen Sensei
Escrito por Fábio Yabu às 11h27
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